Niilismo |
há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua |
Sou verbalmente egoísta. Falo e escrevo para mim. Minhas metáforas só fazem sentido no meu mundo, e se caso fizerem sentido em outro é porque esse é perpendicular ao meu. Escrevo e não explico, exponho mas não explicito. É assim que funciona o meu egoísmo verbal.
Minhas palavras são tão minhas…
(Source: worshipthefeminine, via papiersgras)
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
Ensaios Fotográficos / Manoel de Barros
Zombie Walk PB
I find this moving
when a woman poses naked. It’s just that it’s beautiful, like a gift or a surrender. I don’t feel like a perverse liking them, and I don’t think it’s degrading at all, it’s more of a tribute to them, to the beauty of posing naked for the rest of the world.
(via femaleshapes)
Eis que encontro uma gaveta a encarar-me do profundo de seu ser esvaziado. Fitava-me com o olhar quente às minhas costas e, como aquietei-me por tamanha obsessão, prestou-se a ficar quieta lá, muito bem sentada em minha cama, como assim a havia posto. Que é? perguntei-lhe, já de saco cheio. Ela nada me respondeu. Mirava-me um interior há muito tempo vazio, cheirando a guardado. Ficamos em um silêncio perturbador, daqueles estilo chuva-rua de pedra- cigarros. O pior que nem frio estava, nenhuma brisa infeliz a saltitar janela a dentro para quebrar o gelo. Então ficamos assim, um de frente para o outro, ela a querer dizer-me em indiretas coisas que não conseguia entender e eu, cercado de raiva e hostilidade, nada também lhe dizia. Serra e martelo na mão, com o suado corpo erguido por sobre ela, mesmo assim, a gaveta não se deixava intimidar. Você não me pertence, também não te quero. Ela permaneceu frígida. Ocupa um canto no meu guarda roupas só por aluguel, não faça essa cara de quem está com raiva por eu estar lhe cancelando o contrato. Senti-a virar a cara, e virei a minha também. Meus olhos caíram onde antes era a sua morada, um lugar que lhe cabia perfeitamente. Suspirei. Ora, não fique assim! Fique feliz por eu não lhe jogar pela janela. Ela me ignorou, com ares de arrogância. Peguei-lhe pelas extremidades de cerejeira e a sacudi. É isso que você quer?! Pois suma de uma vez! Ou vou jogar-lhe por inteiro! Ela titubeou em meus braços e quase caiu. Rejeitava-me. Senti sua fragilidade desagarrada. Foi para na ponta da cama, sentei-me onde antes estava ela. Serra e martelo no chão. Diga-me, sim? De que me adianta uma gaveta vazia no guarda-roupas? Não me respondeu, ficamos a encarar o chão sujo de poeira e serragem. Outro suspiro, uma brisa aventurou-se para dentro. Tá bem. Ajudei a se erguer e a coloquei de volta em seu lugar. Mas não venha esperar que coloque coisas em seu interior. Ela acomodou-se entre seus milímetros. Parecia conformada em ser só gaveta. Conformei-me eu também que aquele lugar lhe pertencia, no mínimo por usucapião.